Photo by AFP/ Patrick Fallon
25 Mar 2025 Reportagem Chemicals & pollution action

Cinco formas de reduzir os resíduos na indústria da moda

Photo by AFP/ Patrick Fallon

No deserto do Atacama, no Chile, as pilhas de roupas descartadas atingiram uma altura tão grande que foram vistas do espaço. Na capital do Bangladesh, Dhaka, a imprensa internacional relatou que corantes têxteis fizeram um rio ficar preto. No Canal da Mancha, pesquisadores encontraram fibras sintéticas na barriga de peixes.   

Estes são todos sinais de uma indústria de vestuário que, segundo os especialistas, está tendo um impacto cada vez mais pesado no planeta, não só decorrente da poluição, mas também das mudanças climáticas e da ocupação de terras. 

Quer algumas estatísticas? A indústria da moda produz até 8% das emissões globais de gases com efeito de estufa e, a cada segundo, o equivalente a um caminhão de lixo cheio de roupa é incinerado ou depositado em aterros, segundo a Fundação Ellen MacArthur.    

No entanto, especialistas dizem que há algumas medidas simples que governos, empresas e cidadãos podem adotar para minimizar os resíduos neste setor e reduzir o seu impacto ambiental. 

"A boa notícia é que ainda não é tarde demais para construir um setor da moda mais circular e mais sustentável", afirma Elisa Tonda, chefe da Seção de Recursos e Mercados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). “No entanto, precisamos da colaboração de todos se quisermos fazer a mudança sistêmica necessária para transformar a indústria da moda numa força para o bem ambiental.” 

No dia 30 de março, o mundo celebrará o Dia Internacional do Resíduo Zero, que este ano se centrará na moda e nos têxteis. Antes da celebração, falamos com Tonda sobre cinco formas de tornar o setor mais sustentável. 

1. Construir uma indústria da moda mais circular 

O modelo de negócio linear da indústria da moda é a origem da maior parte dos resíduos que produz, afirma Tonda. Muitas roupas são produzidas de forma barata e rápida, sem grande consideração pelo seu impacto no planeta. Estas roupas são muitas vezes usadas apenas durante um curto período de tempo, sendo depois descartadas em aterros ou incineradas. Isso impulsiona as mudanças climáticas, esgota os recursos naturais e inunda a terra, o mar e o ar com produtos químicos perigosos. 

A solução? 

Segundo Tonda, a indústria precisa reduzir o volume de produção de novos artigos e tornar-se mais circular, mantendo roupas e matérias-primas em uso durante o maior tempo possível. Para isso, produtores de vestuário deveriam produzir peças mais duradouras, utilizar tecidos mais sustentáveis e facilitar a reciclagem das roupas. 

À medida que a indústria e os consumidores adotam modelos de negócio circulares e se afastam da fast fashion, optando por produtos mais duradouros e um consumo sustentável, será importante apoiar os países produtores para que não fiquem para trás na transição", acrescenta Tonda. 

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 Mais de 15.000 produtos químicos, alguns deles perigosos, são utilizados na fabricação de têxteis, o que levou os governos a exigir a regulamentação do que é utilizado em roupas. Foto de NurPhoto via AFP/Rehman Saad 

2. Melhorar a reciclagem de tecidos 

Apenas 1% das fibras disponíveis para uso em novas roupas, tecidos e panos para móveis e calçados vêm de têxteis reciclados, segundo a Textile Exchange, uma organização não governamental. 

Para aumentar a reciclagem, Tonda diz que municípios podem investir em infraestruturas para a coleta de resíduos têxteis, como bancos de roupas, que permitem que as pessoas deixem suas roupas usadas. Eles também podem expandir os programas de reciclagem de tecidos. Enquanto isso, os governos nacionais podem implementar programas de responsabilidade estendida do produtor, que tornam os fabricantes responsáveis pelo que acontece com as roupas no final de sua vida útil – em vez dos municípios e consumidores. Muitos países estão começando a fazer isso. 

Enquanto isso, as marcas de vestuário podem produzir roupas mais fáceis de reciclar, inclusive escolhendo tecidos facilmente reutilizáveis e eliminando produtos químicos perigosos. 

3. Retirar produtos químicos perigosos das roupas 

Mais de 15.000 produtos químicos são usados na fabricação têxtil, de acordo com um artigo na revista Springer Nature. Alguns produtos químicos, como os adicionados para tornar as roupas retardantes de chamas e resistentes a manchas, são perigosos e podem acumular no meio ambiente por décadas, potencialmente prejudicando humanos, animais e o planeta. Esses coquetéis químicos também podem interagir de maneiras complexas e dificultar a reciclagem segura de roupas. 

É por isso que Tonda ressalta importância de os governos regularem e pressionarem pelo gerenciamento seguro de produtos químicos perigosos usados na produção têxtil. Enquanto isso, as marcas de vestuário podem garantir que seus produtos sejam feitos com substâncias ecológicas, adotando o que especialistas chamam de "química verde e sustentável". 

Quando roupas sintéticas são lavadas e usadas, elas soltam microfibras plásticas, algumas das quais carregam produtos químicos perigosos, como foi descoberto por um estudo na revista Microplastics. Mais uma razão, diz Tonda, para as marcas retirarem químicos perigosos do ciclo de produção. Produtores têxteis, fabricantes de máquinas de lavar e estações municipais de tratamento de águas residuais também precisam coletar e compartilhar mais dados sobre a liberação de microfibras e filtros eficazes para elas, e as marcas precisam fornecer informações aos consumidores sobre como cuidar adequadamente dos produtos, acrescenta. 

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Para diminuir o resíduo, especialistas dizem que consumidores podem fazer compras em lojas vintage, consertar ou modificar roupas existentes, alugar peças para ocasiões especiais e trocar itens com amigos. Foto da Science Photo Library via AFP / Caia Image

4. Mudar a narrativa de que “novo sempre é melhor” 

Críticos dizem que a indústria da moda, alimentada por um dos mecanismos de marketing mais poderosos do mundo, tem incentivado consumidores há muito tempo a comprar mais roupas do que precisam. A produção de roupas dobrou de 2000 a 2015, enquanto o número de vezes que uma peça de roupa foi usada caiu 36%, segundo a Fundação Ellen MacArthur

Um relatório recente do PNUMA e da ONU Mudanças Climáticas convocou membros da indústria da moda – incluindo profissionais de marketing de marcas, editores de revistas e influenciadores de mídia social – a contrariarem a tendência de “novo é melhor”. O relatório mostrou que eles podem fazer isso promovendo estilos de vida mais sustentáveis, pressionando as marcas de roupas a reduzir a produção e eliminando mensagens que incentivam consumo excessivo.   

"Marcas podem criar mensagens de marketing e produtos com longevidade emocional – em que clientes são inspirados a e capazes de usar e manter produtos por mais tempo", diz Tonda. "Todos podem incentivar as pessoas ao seu redor a valorizar e ser criativas com as roupas que já têm, em vez de comprar mais." 

Para apoiar isso, governos podem obrigar empresas a divulgar o impacto ambiental das roupas que fabricam, o que ajudaria os consumidores a tomar decisões mais informadas e sustentáveis. 

5. Comprar menos e comprar melhor 

Embora a maior parte da responsabilidade de tornar a indústria da moda mais sustentável deva cair em governos e empresas, Tonda diz que os consumidores têm um papel importante a desempenhar. Ela os incentiva a "comprar dentro de seus próprios guarda-roupas" e apoiar modelos de negócios circulares. Isso significa, por exemplo, consertar ou alterar roupas existentes, alugar peças para ocasiões especiais, fazer compras em lojas vintage, comprar roupas de segunda mão online e trocar itens com amigos. 

Quando comprar novo é a única opção, Tonda recomenda escolher marcas e materiais sustentáveis quando possível e focar em roupas de alta qualidade que resistirão aos testes do tempo. 

"Os consumidores têm um poder tremendo e, ao escolher opções mais circulares, podem enviar um sinal para aqueles com influência e meios para tornar a indústria da moda mais sustentável", diz Tonda. 

O Dia Internacional do Resíduo Zero, comemorado em 30 de março, foi estabelecido por meio da Resolução 77/161 da Assembleia Geral da ONU e é facilitado conjuntamente pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pelo Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (UN-Habitat). Este dia tem como objetivo aumentar a conscientização sobre o papel crítico da gestão de resíduos e do consumo e produção responsáveis para alcançar o desenvolvimento sustentável. Ele pede que indivíduos e organizações adotem uma abordagem de ciclo de vida, com foco na redução do uso de recursos e emissões ambientais em todas as etapas do ciclo de vida de um produto.